top of page

1242 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Câmara instala seis comissões temáticas e escolhe novos presidentes

    Acordo entre líderes e Hugo Motta manteve maioria dos colegiados com os mesmos partidos. A Câmara dos Deputados instalou nesta terça-feira (3) seis comissões temáticas. O comando dos colegiados foi definido a partir de um acordo entre líderes partidários e o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), o que manteve a maior parte das presidências sob responsabilidade dos mesmos partidos que já controlavam esses espaços. Entre as comissões instaladas, a única mudança de partido ocorreu na Comissão de Minas e Energia, que deixou o PSD e passou para o PL. Nos demais colegiados, houve apenas a troca dos parlamentares que assumem a presidência. Embora as presidências sejam escolhidas formalmente por eleição, a composição costuma ser acertada previamente para evitar disputas internas. Assim, as siglas distribuem entre si o comando das comissões conforme o tamanho das bancadas. As comissões temáticas funcionam como uma etapa central na tramitação de propostas legislativas e, em muitos casos, definem o avanço de projetos até o plenário. Além disso, os colegiados podem convocar ministros, solicitar informações ao Executivo e deliberar sobre requerimentos. Essas instâncias também participam da destinação de parte das emendas parlamentares, cuja execução e critérios de distribuição vêm sendo alvo de questionamentos no STF. A Câmara deve dar continuidade ao processo de instalação dos demais colegiado nesta quarta-feira (4). As seis comissões instaladas na terça ficaram sob as seguintes presidências: Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação: Átila Lira (PP-PI); Comissão de Viação e Transportes: Cláudio Cajado (PP-BA); Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado: Coronel Meira (PL-PE); Comissão de Trabalho: Max Lemos (PDT-RJ); Comissão de Minas e Energia: Joaquim Passarinho (PL-PA); Comissão de Relações Exteriores: Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) Fonte: Congresso em Foco

  • Deputado Arnaldo Jardim: biocombustíveis movimentam cadeia produtiva mais do que o petróleo

    As frentes parlamentares produtivas, de biocombustíveis e bioenergia lançam, nesta quarta-feira (4), uma coalização pela consolidação do Brasil como referência global em transição energética, com foco especialmente nos biocombustíveis. Em entrevista ao Painel Eletrônico nesta quarta, momentos antes do lançamento, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) , comentou a importância de o Brasil estar na vanguarda desse movimento. Presidente da Comissão de Transição Energética da Câmara e relator do texto que deu origem à Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/24), Jardim disse que o país tem avançado no setor, com aumento de investimentos e geração de uma cadeia ampla de emprego e renda. “Além de ter esse benefício ambiental extraordinário, os biocombustíveis produzem uma cadeia muito grande de emprego e renda, porque a extração do petróleo, ela é limitada, é uma atividade quase que solitária de alguns especialistas. E plantar aquilo que é o milho ou a cana para produzir etanol, plantar a soja, plantar a mamona, extrair o biodiesel a partir do sebo bovino, fazer com que aterros, que antes emitiam só poluentes, mas isso possa produzir o biometano, o biogás, como todos os dejetos também do agro ser utilizados, aquilo que vem de confinamentos, de granjas, tudo isso cria uma virtuosidade muito grande,” defendeu. Arnaldo Jardim lembrou que a 30ª edição Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, realizada no país em novembro, permitiu ao Brasil mostrar com dados e estudos que a produção dos biocombustíveis não compete com a de alimentos; pelo contrário, elas se complementam. “Então aqui cada um dos setores é tratado. O etanol, o biodiesel, o biogás, o combustível sustentável de aviação, mas acima de tudo é tratado também uma diretiva que o Brasil já participa internacionalmente, há uma aliança global pelos biocombustíveis, reunindo governos. E agora nós, no Parlamento, também avançamos”, destacou. Segundo o deputado, a Lei do Combustível do Futuro permitiu a expansão da porcentagem de biocombustíveis no combustível usado no país. Arnaldo Jardim enfatizou, por exemplo, que a mistura do etanol na gasolina subiu de 27% para 30%. Do biodiesel de 14% para 15% do diesel. Há também conversas para ampliação do percentual de biometano no gás natural. E ainda para o combustível sustentável de aviação e no transporte marítimo. O deputado informou, ainda, que, desde a COP30, avançaram as tratativas para que a indústria de maquinários agrícolas e de transporte intensifique o uso de biocombustíveis. Apresentação - Ana Raquel Macedo Fonte: Agência Câmara

  • Tratado do Alto-Mar: entenda o que muda para o Brasil

    Acordo que trata da biodiversidade nos oceanos já está em vigor Uma cagarra-do-pacífico (Calonectris leucomelas) sobrevoa o oceano — Foto: Yusuke Goto O Acordo sobre a Conservação e o Uso Sustentável da Diversidade Biológica Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional (BBNJ, na sigla em inglês) entrou em vigor neste mês de janeiro, após duas décadas de negociação internacional. Imediatamente depois da finalização do texto no mês de março de 2023, 145 países assinaram o documento, que passou a ser chamado de Tratado do Alto-Mar, entre eles o Brasil. Para entrar em vigor, esse acordo sobre os oceanos além das faixas marítimas nacionais precisava da ratificação de pelo menos 60 países para começar a valer 120 depois. No Brasil, o Congresso Nacional ratificou o acordo em 16 de dezembro de 2025, mas antes mesmo disso, em setembro, outros 60 países já haviam confirmado a participação. Até a publicação desta reportagem, 84 países já ratificaram o acordo, segundo a rede global de organizações sociais High Seas Alliance. Mas, porque esse tratado internacional sobre um bem comum fora dos territórios dos países desperta tanto interesse? Segundo a diretora do Departamento de Oceano e Gestão Costeira do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Ana Paula Prates, apesar de outros tratados internacionais estabelecerem regras de conservação da biodiversidade marinha, eles alcançam principalmente os territórios nacionais, enquanto este é o primeiro a tratar integralmente dessa região internacional, que representa dois terços dos oceanos do planeta . “Era necessário esse olha integrado, já que tudo o que acontece nas águas internacionais interfere também nas nossas águas jurisdicionais. Seja a questão de biopirataria, dos impactos ambientais de empreendimentos, como pesca de arrasto profundo, seja a questão do próprio plástico”, diz. Seres vivos Com mais de 360 milhões de quilômetros de extensão e locais que ultrapassam 10 quilômetros de profundidade, os oceanos são os principais responsáveis pelo equilíbrio da temperatura do planeta , produzem mais da metade do oxigênio necessário à vida e abrigam uma vasta biodiversidade. Cerca de 64% de toda essa imensidão representa a área de alto-mar, além das jurisdições nacionais. “A gente conhecendo melhor e sabendo, realizando estudos de impacto ambiental das atividades que os humanos desenvolvem nessa área, a gente tem a possibilidade de melhorar a proteção e a conservação dessa biodiversidade, que é de longe a mais importante para a manutenção da vida na terra”, afirma Andrei Polejack, diretor de pesquisa e inovação do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), organização social dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento do oceano. O texto do Tratado do Alto-Mar trata basicamente das diretrizes e governança global para conservação e uso sustentável da biodiversidade em alto-mar, a partir de quatro pilares: Criação de áreas marinhas protegidas em águas internacionais (equivalem às Unidades de Conservação previstas no território brasileiro); Avaliação de atividades econômicas em relação ao impacto ambiental; Repartição dos benefícios dos recursos genéticos; Transferência de tecnologia e desenvolvimento de capacidades. Na prática, qualquer atividade que venha a ser desenvolvida em alto-mar estará sujeita às regras do acordo, já que o tratado é vinculante, portanto, passa a ser uma obrigação legal imposta aos países participantes. “Não será de acordo com cada país, cada empresa ou seu respectivo país. Então, por exemplo, pesca de arrasto de profundidade, que é uma coisa que acontece demais e ninguém nem sabe aonde, vai ter que ser agora avaliada em conjunto com esses países [que participam do Tratado do Alto-Mar]”, explica Ana Paula Prates. Para atuar nessas regiões, os países também precisarão compreender melhor a biodiversidade presente, a partir de investimentos em ciência e tecnologia capazes de chegar até as espécies , como submersíveis de águas profundas, e do mapeamento genético da fauna e flora existente em alto-mar. Benefícios “A gente tem uma possibilidade maravilhosa de recursos novos para medicamentos, cosméticos e outras soluções. Mas que terá que ser avaliada em conjunto e também repartido os benefícios para todos os países que ratificaram. Do mesmo jeito, uma outra questão que vai ser super polêmica, mas vai ter que ser negociada, será o estabelecimento de áreas marítimas protegidas”, afirma a representante do MMA. A ideia é que quando houver dúvida sobre a capacidade de conservação e manutenção do equilíbrio de um determinado ecossistema e das espécies existentes nele, a região seja protegida, com medidas que vão desde a avaliação dos impactos das atividades humanas a serem desenvolvidas no local, até a criação das áreas marinhas protegidas. “Isso é um processo que adota alguns princípios do direito internacional, que estão vinculantes neste tratado, como, por exemplo, a abordagem precatória, que se a gente não sabe direito qual é o impacto, então é melhor a gente suspender as atividades”, reforça Polejack. COP do Alto-Mar Com o tratado já vigorando, somente os países que ratificaram poderão participar da construção das instituições, regras operacionais e processos para que o acordo possa ser operacionalizado . As primeiras negociações para a construção desses instrumentos devem ocorrer a partir da realização de Conferências das Partes (COP) do Tratado do Alto-Mar. Antes mesmo dessa etapa, quando o acordo recebeu as assinaturas dos países interessados em participar, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) constituiu uma comissão preparatória, responsável pela escolha de um país para abrigar o secretariado e outras instituições como o corpo científico e técnico, além de estabelecer a estrutura financeira e as regras para a tomada de decisões. Duas reuniões já foram realizadas nos meses de abril e agosto de 2025 e uma terceira deve ocorrer em março de 2026, na sede das Nações Unidas, em Nova York. “Nessa [reunião] a gente vai poder decidir onde vai ser o secretariado, já em disputa. A Bélgica já se apresentou, o Chile e agora a China. Os três estão como candidatos a serem a sede do secretariado executivo. É também deve definir a data da primeira COP, que a gente ainda não sabe”, diz Ana Paula Prates. Vantagens Na avaliação de Andrei Polejack, o Brasil tem muito a contribuir com todo o conhecimento diplomático e científico desenvolvido na atuação em outros tratados internacionais, como o os que foram criados na Eco92, no Rio de Janeiro, que tratam do clima, biodiversidade e desertificação. Ele também considera importante que sejam realizados debates sobre os interesses sociais e coletivos da população. “Esse trabalho tem que ser baseado em evidência científica, tem que considerar o equilíbrio entre os usos dessa biodiversidade nas áreas além da jurisdição nacional, no alto mar, mas também tem que distribuir os benefícios gerados nos comerciais. Então, há muitos detalhes. É um acordo complexo e ele realmente precisa de todas as vozes juntas”, conclui. Fonte: Um só Planeta

  • Sociedade civil cobra de Lula cronograma para fim do uso de fósseis no país

    Por determinação do Executivo, ministérios têm até a próxima semana para apresentar diretrizes de criação do Mapa do Caminho para fim dos fósseis A poucos dias do prazo final para que ministérios apresentem as diretrizes de criação de um Mapa do Caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis no país, organizações da sociedade civil publicaram documento com uma série de recomendações ao governo, com o objetivo de subsidiar o processo. A lógica que o governo deve seguir é a da “exploração mínima necessária”, dizem as 161 organizações que compõem o Observatório do Clima OC, no documento divulgado nesta quarta-feira (28). As recomendações são detalhadas em 46 tópicos técnicos, regulatórios e financeiros, que podem ser resumidas nos seguintes pontos principais: Recomenda-se que o governo: Estabeleça um cronograma para zerar os leilões de petróleo no Brasil, de forma a manter a exploração somente nos poços já abertos; Delimite zonas de exclusão para a expansão da exploração de petróleo, sendo a Margem Equatorial uma dessas zonas; Otimize a geração hidrelétrica sem a construção de novos reservatórios e com a integração de outras fontes de energia, como a fotovoltaica, no espelho d´água dos reservatórios; Transforme o transporte rodoviário de cargas, de forma que os veículos deixem de ser abastecidos com fósseis e passem a usar combustíveis como biometano, biodiesel, hidrogênio e eletrificação; Reformule o portfólio da Petrobras para investir em mais energia renovável; Abandone de vez a lógica de “explorar para financiar”; Publique uma matriz de responsabilidades e um plano de descomissionamento de poços que estão no final de sua vida util e Crie uma “Autoridade de Implementação” do Mapa do Caminho, responsável por monitorar entregas e prazos O documento ainda aborda temas como eliminação na produção de energia por termoelétrica, além de aspectos socioambientais da transição. As orientações foram embasadas no estudo publicado em 2024 “Futuro da energia: visão do Observatório do Clima para uma transição justa no Brasil” e defendem que o país se torne negativo em carbono até 2045. “Metas ambiciosas devem estar acompanhadas de instrumentos, cronogramas e mecanismos de coordenação capazes de reduzir riscos sistêmicos, preservar a segurança energética, assegurar justiça tarifária e manter a competitividade econômica”, diz o documento. Na contramão do governo Apesar de ter defendido com veemência a criação de um Mapa do Caminho para o Fim dos Fósseis durante a COP30, Lula não tem planos de parar a exploração no Brasil.  Pelo contrário: o Plano Estratégico da Petrobras para o período 2024-2028 prevê investimentos de US$ 3,1 bilhões e a perfuração de 16 poços em toda a extensão da Margem Equatorial, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte.  Mais da metade do petróleo produzido no Brasil é exportado. Segundo Suely Araújo, especialista em políticas públicas do OC, se quiser construir um Mapa do Caminho que realmente leve ao afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, o governo terá de reverter as políticas atuais de intensificação da exploração e produção de fósseis. “Sem isso, ficaremos apenas na esfera do discurso, o que não resolve nada. A sociedade civil tem de cobrar medidas efetivas nessa perspectiva. O Brasil exporta mais da metade do petróleo que produz, tem de gerenciar estratégicamente as áreas de produção já abertas e parar de expandir para novas fronteiras, especialmente nas áreas ambientalmente frágeis”, disse, a ((o))eco. No dia 5 de dezembro, os Ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e Mudança do Clima e a Casa Civil receberam de Lula a ordem de elaborar, no prazo de 60 dias, uma proposta de resolução com “diretrizes para elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no país.” O prazo termina na próxima semana. Fonte: O Eco

  • Em nova carta, Corrêa do Lago defende mudança na forma de trabalhar a agenda climática, com lições vindas da COP30

    O presidente da COP30 acredita que a governança climática deve mudar em momento de agravamento da crise geopolítica, mas reforçou que os papéis das COPs na tomada de decisões formais, na coordenação universal e na construção de momentum permanecem reais, eficazes e necessários Em uma nova carta, a 12ª, à comunidade internacional, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago , abordou a estrutura do multilateralismo focado na urgência climática, em outras palavras, na forma como as conferências do clima e as demais discussões e ações envolvendo a agenda de mudanças climáticas operam. O executivo explicou que a COP30, principal conferência que trata de clima da ONU, realizada em Belém (PA) no ano passado , foi importante inclusive para lançar luz sobre os limites do multilateralismo climático e da tomada de decisões por consenso. “À medida que avançamos em nosso trabalho em 2026, que encaremos esses limites não como fronteiras intransponíveis, mas como sinais valiosos, que nos ensinam que o multilateralismo climático amadureceu e está pronto para evoluir”, diz. Para o executivo, que segue na liderança dos trabalhos ao lado da nova liderança da conferência do clima de 2026 (COP31), de Austrália/Turquia, é preciso desenvolver uma nova abordagem, em dois níveis: centrada no consenso e na aceleração da implementação. “O multilateralismo precisa ganhar a velocidade necessária para acompanhar o aquecimento global, sem comprometer a tomada de decisões por consenso como fonte de legitimidade, universalidade e direito internacional”, apontou. Na carta, o diplomata citou que, com a decisão 1/CMA.7, a CMA resolve formalmente “promover de forma decisiva a transição para um foco na implementação do Acordo de Paris e das decisões adotadas desde sua primeira sessão”. Ele se refere a uma resolução importante da CMA (Conferência das Partes atuando como Reunião das Partes do Acordo de Paris) em sua sétima sessão (CMA.7), que tratou de temas cruciais como o Global Stocktake (GST), o novo Programa de Trabalho sobre Transição Justa (Just Transition Work Programme) e a implementação de programas de trabalho para ambição climática, sendo um marco nas discussões globais sobre a ação climática sob o Acordo de Paris. “É por isso que o multilateralismo climático pode agora ser aprimorado para operar em duas velocidades complementares”, reitera Corrêa do Lago. No modelo institucional em duas velocidades, a primeira, defende o presidente da COP30, permanece ancorada no consenso multilateral, garantindo legitimidade, segurança jurídica e direção coletiva, enquanto a segunda se concentra na implementação, permitindo que coalizões voluntárias e atores preparados mobilizem recursos, executem soluções e gerem aprendizado em escala, sem reabrir acordos já consolidados. Nesse segundo eixo, a prioridade seria acelerar a mobilização e a coordenação de financiamento, tecnologia, capacitação e políticas públicas para destravar mudanças em larga escala e efeitos em cascata entre setores, impulsionando “pontos de inflexão positivos” em áreas de alto impacto, como redução de gases não CO₂, restauração de ecossistemas, sistemas de alerta precoce, infraestrutura pública digital e fortalecimento institucional. Corrêa do Lago também defendeu o papel da COP na tomada de decisões formais, na coordenação universal e na construção de momentum permanecem reais, eficazes e necessários. Sem perda de tempo A governança climática, em sua opinião, deve mudar em momento de agravamento da crise geopolítica, como a que o mundo está passando, citando “transições sistêmicas” em diversas áreas, como geopolítica, sociedades, economias, finanças, culturas, tecnologia e sistemas de informação. “A urgência climática não esperará até que as condições políticas e socioeconômicas se tornem ideais”, afirma. Corrêa do Lago fez ainda uma menção à sabedoria iorubá para reforçar o ponto. “Como evocam a tradição afro-brasileira e a sabedoria iorubá por meio da figura de Ogum, o ferreiro, os momentos de transição não são aqueles em que o ferro se rompe, mas em que é colocado na forja. O multilateralismo climático chegou a esse ponto.” Pontuou que a agenda climática não tem tempo de esperar “soluções impostas por decreto”. “À medida que nos afastamos de uma ênfase na negociação, a implementação não pode aguardar unanimidade em cada etapa operacional”, diz. Mas reiterou que a COP30 contribui para que a ação climática ultrapassou “de forma irreversível” os limites do direito internacional, das salas de negociação e de relatórios técnicos. “De nicho ao centro das agendas, foram criadas as condições para uma transição estrutural global em direção a um desenvolvimento de baixo carbono e resiliente ao clima. Lições e avanços da COP30 Corrêa do Lago contextualizou dizendo que a COP30 demonstrou que “um novo modelo de resposta global está em formação – profundamente entrelaçado ao seu contexto e capaz de tornar a implementação climática cada vez mais onipresente, assim como já o são os impactos do aquecimento global”. Para ele, a conferência marcou a transição do regime climático internacional de quase três décadas centrado em negociações para uma nova fase orientada à implementação, em um contexto de crescentes desafios geopolíticos e socioeconômicos. A chamada “COP da Verdade” promoveu um debate inédito sobre a dependência dos combustíveis fósseis e assumiu a responsabilidade de construir roteiros para uma transição justa, ordenada e equitativa, além de estratégias para interromper e reverter o desmatamento. Também foi uma presidência focada em integrar a agenda climática a temas estruturais como estabilidade financeira, desenvolvimento, comércio, energia, tecnologia, inclusão social e combate às desigualdades, guiada pelo objetivo de fortalecer o multilateralismo, aproximá-lo da sociedade e acelerar a entrega de resultados. Elencou alguns feitos da COP30, “COP da implementação”, a exemplo da forte mobilização global, considerada, segundo ele, uma das mais participativas da história, alcançando quase 200 milhões de pessoas no ambiente digital e reunindo cerca de 300 mil visitantes na Zona Verde, em Belém. A Agenda de Ação mobilizou mais de 480 iniciativas em 190 países, e as negociações formais resultaram em 56 decisões por consenso. Entre os avanços, ele citou a captação de mais de US$ 6,6 bilhões junto a países para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF); o lançamento do Acelerador Global de Implementação; a definição de indicadores para o Objetivo Global de Adaptação e o reforço da inclusão de povos indígenas e comunidades afrodescendentes nas decisões climáticas. O Acelerador Global de Implementação, criado na Decisão Mutirão da COP30 e que será coorganizado com as Presidências-designadas da COP31, pode servir como protótipo para incorporar uma nova velocidade institucional ao multilateralismo climático ao destravar velocidade, escala e sequenciamento estratégico, acredita. O embaixador destacou especificamente o compromisso de desenvolver mapas do caminho para a transição dos combustíveis fósseis e para interromper e reverter o desmatamento. “Longe de uma moralização do debate climático, esses roteiros tratam, antes de tudo, de planejamento e estabilidade”, afirmou Corrêa do Lago. “Quando bem conduzido, esse planejamento pode reduzir riscos sistêmicos, proteger balanços patrimoniais e fortalecer a confiança. Quando mal conduzidas, essas mesmas transições podem resultar em desordem, ruptura social, volatilidade e colapso abrupto no valor de ativos financeiros”. Leia a 12ª Carta do Presidente da COP30 na íntegra AQUI .

  • Rematamento pode ser a política mais urgente para salvar a Amazônia

    Transformar áreas já desmatadas em sistemas produtivos de base florestal surge como estratégia decisiva diante do fracasso das medidas tradicionais O avanço das mudanças climáticas tornou evidente aquilo que por muito tempo ignoramos, que a floresta é a tecnologia mais barata e eficiente já criada para remover carbono da atmosfera. Enquanto o mundo investe bilhões em soluções de captura artificial, a Amazônia segue desempenhando esse papel de forma natural, gratuita e em larga escala. Mesmo assim, a região continua sofrendo pressões crescentes, tanto de degradação ambiental quanto de vulnerabilidade social, e o país ainda não encontrou uma resposta capaz de conciliar preservação, desenvolvimento e estabilidade territorial. É nesse contexto que um novo estudo do projeto Amazônia 2030 apresenta uma proposta simples, um tanto quanto óbvia, mais ainda assim, inovadora, o “rematamento” das áreas já desmatadas. Com 85 milhões de hectares abertos ao longo das últimas décadas, muitos deles abandonados ou subutilizados, a Amazônia concentra um paradoxo que combina destruição ambiental com baixa produtividade econômica. O estudo, “Para proteger a Floresta Amazônica, precisamos Rematar as Áreas Desmatadas”, argumenta que a saída não depende apenas de fiscalização, embora ela seja indispensável, mas da conversão dessas áreas degradadas em sistemas produtivos de base florestal, como agroflorestas, cultivos perenes, silvicultura tecnificada e restauração com manejo comercial. Em vez de expandir a fronteira agrícola, expandimos a atividade econômica dentro do que já foi destruído. A proposta mostra que a região possui 35 milhões de hectares aptos ao rematamento sem qualquer conflito com a produção de soja ou gado. Além disso, a Amazônia já movimenta 7,2 bilhões de dólares por ano com produtos compatíveis com a floresta, mas captura apenas 3 por cento de um mercado global que ultrapassa 233 bilhões de dólares. É uma diferença que revela o tamanho da oportunidade, mas também o custo da falta de políticas públicas efetivas que coloquem a economia da floresta no centro do desenvolvimento regional. Os pesquisadores ressaltam que a ausência de alternativas econômicas sólidas mantém parte significativa da população dependente de atividades ilegais ou de baixa produtividade, como grilagem, extração predatória e pecuária extensiva. Sem empregos verdes e cadeias produtivas estruturadas, a conservação se torna frágil. Não basta proteger o que está de pé, é preciso dar destino produtivo ao que já foi derrubado. Rematar, nesse sentido, não é retornar ao passado, mas organizar o futuro. Há, porém, obstáculos importantes. A questão fundiária permanece o maior deles. Sem regularização de áreas antigas e sem proteção efetiva das florestas públicas, investidores e produtores continuam expostos à insegurança jurídica, o que inviabiliza a escala necessária. Também falta financiamento apropriado para atividades que levam anos até gerar retorno. O capital existe, mas não encontra instrumentos compatíveis com o ciclo produtivo florestal, como contratos futuros, fundos garantidores e mecanismos vinculados ao crédito de carbono. A isso se soma a necessidade de tecnologia e capacitação, já que uma economia florestal moderna depende de máquinas adaptadas, operadores treinados e extensionistas capazes de orientar a transição. Mesmo diante desses desafios, o estudo apresenta recomendações claras: Integrar conservação ambiental e segurança pública, porque a experiência recente mostra que políticas ambientais fortes reduzem conflitos, enfraquecem mercados ilegais e ampliam a presença do Estado em regiões vulneráveis. Priorizar os territórios mais críticos, onde a degradação e a violência se sobrepõem, e onde ações coordenadas entre órgãos ambientais, forças de segurança e governos locais podem gerar resultados mais rápidos. Fortalecer os órgãos de fiscalização, garantindo equipes, tecnologia e recursos suficientes para sustentar políticas de longo prazo. Por fim, é fundamental desenvolver instrumentos financeiros e programas de capacitação que permitam que o rematamento se transforme em uma atividade economicamente viável para produtores locais. Se quisermos proteger a Amazônia e enfrentar a crise climática, não basta preservar o que está de pé. Precisamos olhar para o que já foi destruído e transformá-lo em uma base produtiva capaz de gerar renda, empregos e estabilidade territorial. O rematamento não é apenas uma alternativa econômica, é uma estratégia ambiental, climática e social. Em um momento em que o mundo busca soluções urgentes e de impacto imediato, poucas políticas oferecem tanto retorno por tão pouco custo. A Amazônia será decisiva para o futuro do Brasil e do planeta. Mas, para que isso aconteça, precisamos de políticas que reconheçam a floresta como infraestrutura essencial e tratem as áreas degradadas como parte da solução, não como terra perdida. Rematar o que foi derrubado é reconstruir possibilidades. É, acima de tudo, criar condições para que a floresta em pé continue existindo. Fonte: O Eco

  • O mundo entra na “era da falência global da água”: cientistas da ONU definem formalmente a nova realidade pós-crise para bilhões de pessoas.

    Relatório emblemático pede uma reformulação fundamental da agenda global da água, visto que danos irreversíveis levam muitas bacias hidrográficas a um ponto de não retorno à recuperação. Sede da ONU, Nova Iorque (20 de janeiro de 2026) – Em meio ao esgotamento crônico das águas subterrâneas, à superalocação de água, à degradação do solo e da terra, ao desmatamento e à poluição, todos agravados pelo aquecimento global, um relatório da ONU declarou hoje o início de uma era de falência hídrica global, convidando os líderes mundiais a facilitar uma “adaptação honesta e baseada na ciência a uma nova realidade”. O artigo “ Falência Hídrica Global: Vivendo Além de Nossos Recursos Hidrológicos na Era Pós-Crise ” argumenta que os termos familiares “estresse hídrico” e “crise hídrica” não refletem a realidade atual em muitos lugares: uma condição pós-crise marcada por perdas irreversíveis de recursos hídricos naturais e uma incapacidade de retornar aos níveis históricos. “Este relatório revela uma verdade incômoda: muitas regiões estão vivendo além de sua capacidade hídrica, e muitos sistemas de água essenciais já estão falidos”, afirma o autor principal, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas ( UNU-INWEH ), conhecido como “O Centro de Estudos da ONU sobre Água”.   Em termos financeiros, o relatório afirma que muitas sociedades não só ultrapassaram os limites da sua "rendimento" anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve, como também esgotaram as "reservas" de longo prazo em aquíferos, geleiras, zonas húmidas e outros reservatórios naturais. Isso resultou em uma lista crescente de aquíferos compactados, subsidência do solo em deltas e cidades costeiras, desaparecimento de lagos e pântanos e perda irreversível de biodiversidade. O relatório da UNU baseia-se num artigo revisto por pares, a ser publicado na revista Water Resources Management, que define formalmente a falência hídrica como extração excessiva persistente de águas superficiais e subterrâneas em relação aos fluxos renováveis ​​e aos níveis seguros de depleção; e a consequente perda irreversível ou proibitivamente dispendiosa de capital natural relacionado à água. Em contrapartida: O “estresse hídrico” reflete uma alta pressão que permanece reversível. “Crise hídrica” descreve choques agudos que podem ser superados. O relatório é divulgado antes de uma reunião de alto nível em Dakar, Senegal (26 a 27 de janeiro), para preparar a Conferência das Nações Unidas sobre a Água de 2026, que será coorganizada pelos Emirados Árabes Unidos e Senegal de 2 a 4 de dezembro nos Emirados Árabes Unidos.   Embora nem todas as bacias hidrográficas e países estejam em situação de falência hídrica, Madani afirma: “Suficientes sistemas críticos em todo o mundo já ultrapassaram esses limites. Esses sistemas estão interligados por meio do comércio, da migração, dos efeitos climáticos e das dependências geopolíticas, de modo que o cenário de risco global agora está fundamentalmente alterado.” Madani destaca os seguintes quatro pontos essenciais: A água não pode ser protegida se permitirmos que o ciclo hidrológico, o clima e o capital natural subjacente que a produz sejam interrompidos ou danificados. O mundo tem uma importante oportunidade estratégica, ainda em grande parte inexplorada, para agir. A água é uma questão que transcende as fronteiras políticas tradicionais. Pertence ao norte e ao sul, à esquerda e à direita. Por essa razão, pode servir como uma ponte para criar confiança e união entre e dentro das nações. No mundo fragmentado em que vivemos, a água pode se tornar um poderoso foco de cooperação e de alinhamento da segurança nacional com as prioridades internacionais. Investir em água é também investir na mitigação das mudanças climáticas, da perda de biodiversidade e da desertificação. A água não deve ser tratada apenas como um setor secundário afetado por outras crises ambientais. Pelo contrário, investimentos direcionados em água podem abordar as preocupações imediatas de comunidades e nações, ao mesmo tempo que promovem os objetivos das Convenções do Rio (clima, biodiversidade e desertificação). Uma ênfase global renovada na água poderia ajudar a acelerar negociações paralisadas e potencialmente revitalizar processos internacionais interrompidos. Um foco prático e cooperativo na água oferece uma maneira de conectar necessidades locais urgentes com objetivos globais de longo prazo. Pontos de acesso Na região do Oriente Médio e Norte da África, o elevado estresse hídrico, a vulnerabilidade climática, a baixa produtividade agrícola, a dessalinização com uso intensivo de energia e as tempestades de areia e poeira se intercruzam com economias políticas complexas; Em algumas partes do sul da Ásia, a agricultura dependente de águas subterrâneas e a urbanização têm produzido declínios crônicos nos lençóis freáticos e subsidência local; e No sudoeste americano, o rio Colorado e seus reservatórios tornaram-se símbolos da água prometida em excesso. Um mundo em vermelho Com base em conjuntos de dados globais e evidências científicas recentes, o relatório apresenta uma visão estatística contundente das tendências, sendo a grande maioria causada pelos seres humanos: 50%: Grandes lagos em todo o mundo que perderam água desde o início da década de 1990 (com 25% da humanidade dependendo diretamente desses lagos) 50%: A água doméstica global agora provém de águas subterrâneas. 40%+: Água de irrigação extraída de aquíferos que estão sendo drenados de forma constante. 70%: Principais aquíferos apresentam declínio a longo prazo 410 milhões de hectares: Área de zonas úmidas naturais – quase equivalente em tamanho a toda a União Europeia – eliminada nas últimas cinco décadas. Mais de 30%: Perda global de massa glacial em diversas regiões desde 1970, com previsão de que cadeias montanhosas inteiras de baixas e médias latitudes percam completamente suas geleiras funcionais dentro de algumas décadas. Dezenas: Grandes rios que agora não chegam ao mar em certas partes do ano. Mais de 50 anos: Há quanto tempo muitas bacias hidrográficas e aquíferos vêm acumulando déficits. 100 milhões de hectares: Terras agrícolas danificadas apenas pela salinização E as consequências para os seres humanos: 75%: População humana em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica. 2 bilhões: Pessoas que vivem em terrenos que estão afundando. 25 cm: Queda anual observada em algumas cidades. 4 bilhões: Pessoas que enfrentam grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano. 170 milhões de hectares: Terras agrícolas irrigadas sob alto ou altíssimo estresse hídrico – equivalente às áreas da França, Espanha, Alemanha e Itália juntas. US$ 5,1 trilhões: Valor anual dos serviços ecossistêmicos perdidos em áreas úmidas 3 bilhões: Pessoas que vivem em áreas onde o armazenamento total de água está diminuindo ou é instável, sendo que mais de 50% dos alimentos produzidos no mundo estão nessas mesmas regiões afetadas. 1,8 bilhão: Pessoas vivendo em condições de seca em 2022–2023 US$ 307 bilhões: Custo global anual atual da seca 2,2 bilhões: Pessoas que não têm acesso a água potável gerenciada de forma segura, enquanto 3,5 bilhões não têm acesso a saneamento básico gerenciado de forma segura. Diz Madani: “Milhões de agricultores estão tentando produzir mais alimentos com fontes de água cada vez menores, poluídas ou que estão desaparecendo. Sem uma transição rápida para uma agricultura inteligente em relação à água, a crise hídrica se espalhará rapidamente.” Um novo diagnóstico para uma nova era. Uma região pode ser inundada em um ano e ainda assim estar em situação de falência hídrica, acrescenta ele, se as retiradas a longo prazo excederem a reposição. Nesse sentido, a falência hídrica não se refere à aparência de um local, seja ele úmido ou seco, mas sim ao equilíbrio, à contabilização e à sustentabilidade. Segundo Madani: Tal como acontece com as alterações climáticas globais ou as pandemias, uma declaração de falência global da água não implica um impacto uniforme em todo o lado, mas sim que um número suficiente de sistemas em diferentes regiões e níveis de rendimento se tornaram insolventes e ultrapassaram limites irreversíveis, constituindo uma condição à escala planetária. “A crise hídrica também é global porque suas consequências se espalham”, explica Madani. “A agricultura responde pela grande maioria do consumo de água doce, e os sistemas alimentares estão intimamente interligados por meio do comércio e dos preços. Quando a escassez de água prejudica a agricultura em uma região, os efeitos se propagam pelos mercados globais, pela estabilidade política e pela segurança alimentar em outros lugares. Isso faz com que a crise hídrica não seja uma série de crises locais isoladas, mas um risco global compartilhado que exige um novo tipo de resposta: gestão de falências, não gestão de crises.” Um apelo para redefinir a agenda global da água. O relatório alerta que a atual agenda global da água – focada principalmente em água potável, saneamento e melhorias incrementais de eficiência – já não é adequada em muitos lugares e defende uma nova agenda global da água que: Reconhece formalmente o estado de falência da água. Reconhece a água como uma restrição e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para cumprir os compromissos relativos ao clima, à biodiversidade e ao uso da terra. Prioriza as questões hídricas nas negociações sobre clima, biodiversidade e desertificação, no financiamento do desenvolvimento e nos processos de consolidação da paz. Incorpora o monitoramento de falências relacionadas à água em estruturas globais, utilizando observação da Terra, IA e modelagem integrada. Utiliza a água como catalisador para acelerar a cooperação entre os Estados-Membros da ONU. Na prática, a gestão da falência no setor hídrico exige que os governos se concentrem nas seguintes prioridades: Prevenir danos irreversíveis adicionais, como a perda de zonas úmidas, o esgotamento destrutivo das águas subterrâneas e a poluição descontrolada. Reequilibrar direitos, reivindicações e expectativas para corresponder à capacidade de suporte reduzida. Apoiar transições justas para comunidades cujos meios de subsistência precisam mudar. Transformar setores que consomem muita água, incluindo a agricultura e a indústria, por meio de mudanças nas culturas, reformas na irrigação e sistemas urbanos mais eficientes. Criar instituições para adaptação contínua, com sistemas de monitoramento vinculados à gestão baseada em limiares. O relatório destaca que a escassez hídrica não é apenas um problema hidrológico, mas uma questão de justiça com profundas implicações sociais e políticas que exigem atenção nos mais altos níveis de governo e cooperação multilateral. Os encargos recaem desproporcionalmente sobre pequenos agricultores, povos indígenas, moradores urbanos de baixa renda, mulheres e jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos. “A escassez de água está se tornando um fator de fragilidade, deslocamento e conflito”, afirma o Subsecretário-Geral da ONU, Tshilidzi Marwala, Reitor da UNU. “Gerenciá-la de forma justa – garantindo que as comunidades vulneráveis ​​sejam protegidas e que as perdas inevitáveis ​​sejam compartilhadas equitativamente – é agora fundamental para manter a paz, a estabilidade e a coesão social.” “A gestão de falências exige honestidade, coragem e vontade política”, acrescenta Madani. “Não podemos reconstruir geleiras desaparecidas nem reidratar aquíferos severamente compactados. Mas podemos evitar maiores perdas do nosso capital natural remanescente e reformular as instituições para que se adaptem aos novos limites hidrológicos.” Segundo ele, os próximos marcos – como as Conferências da ONU sobre Água de 2026 e 2028, o fim da Década de Ação pela Água em 2028 e o prazo dos ODS de 2030 – oferecem oportunidades cruciais para implementar essa mudança. “Apesar dos alertas, o relatório não é uma declaração de desespero”, acrescenta Madani. “É um apelo à honestidade, ao realismo e à transformação. Declarar falência não significa desistir, mas sim recomeçar. Ao reconhecermos a realidade da falência hídrica, podemos finalmente tomar as decisões difíceis que protegerão as pessoas, as economias e os ecossistemas. Quanto mais adiarmos, maior será o déficit.” Relatório resumido Destaques da mídia Este relatório declara que o mundo já entrou na era da falência global da água. Essa condição não é uma ameaça distante, mas uma realidade presente. Muitos sistemas de abastecimento de água para consumo humano encontram-se agora em um estado de colapso pós-crise, no qual os níveis anteriores não podem mais ser restaurados. A falência global da água é definida como um estado persistente de colapso pós-crise. Nesse estado, o uso e a poluição da água a longo prazo excederam os fluxos renováveis ​​e os limites de esgotamento seguros. Partes essenciais do sistema hídrico não podem mais ser realisticamente restauradas aos níveis anteriores de abastecimento e funcionamento do ecossistema. Termos como estresse hídrico e crise hídrica já não descrevem adequadamente a nova realidade hídrica mundial. Muitos rios, lagos, aquíferos, pântanos e geleiras ultrapassaram pontos críticos e não conseguem retornar aos níveis anteriores. A expressão "crise temporária" já não se aplica a muitas regiões. O ciclo global da água ultrapassou seus limites planetários seguros. Juntamente com o clima, a biodiversidade e os sistemas terrestres, a água doce foi levada para além de seu espaço operacional seguro. O relatório conclui que o mundo está vivendo além de sua capacidade hidrológica. Bilhões de pessoas vivem em situação de insegurança hídrica crônica. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável gerenciada de forma segura, 3,5 bilhões não têm acesso a saneamento básico gerenciado de forma segura e quase 4 bilhões enfrentam grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica. As águas superficiais e os pântanos estão diminuindo em uma escala gigantesca. Mais da metade dos grandes lagos do mundo perderam água desde o início da década de 1990, afetando cerca de um quarto da população mundial que depende diretamente deles. Nas últimas cinco décadas, a humanidade perdeu aproximadamente 410 milhões de hectares de pântanos naturais, quase a área da União Europeia. Isso inclui cerca de 177 milhões de hectares de brejos e charcos interiores, aproximadamente o tamanho da Líbia ou sete vezes a área do Reino Unido. A perda de serviços ecossistêmicos desses pântanos é estimada em mais de US$ 5,1 trilhões, semelhante ao PIB combinado de cerca de 135 dos países mais pobres do mundo. O esgotamento das águas subterrâneas e a subsidência do solo demonstram que as reservas ocultas estão se esgotando. Cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo apresentam declínios a longo prazo. A subsidência do solo associada à superexploração das águas subterrâneas afeta agora mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, quase 5% da área terrestre global, e cerca de 2 bilhões de pessoas. Isso reduz permanentemente o armazenamento de água e aumenta o risco de inundações em muitas cidades, deltas e zonas costeiras. A degradação da qualidade da água reduz ainda mais a disponibilidade de água utilizável e acelera a falência de recursos hídricos. O crescente volume de esgoto não tratado, o escoamento agrícola, a poluição industrial e a salinização estão degradando rios, lagos e aquíferos. Mesmo onde os volumes parecem suficientes no papel, a fração de água segura para consumo humano, irrigação e ecossistemas continua a diminuir. A criosfera está derretendo, erodindo uma importante reserva hídrica de longo prazo. Em diversas regiões do mundo, mais de 30% da massa glacial já foi perdida desde 1970. Algumas cadeias montanhosas correm o risco de perder geleiras funcionais em poucas décadas, comprometendo a segurança hídrica de centenas de milhões de pessoas que dependem de rios alimentados pelo derretimento de geleiras e neve. Os agricultores e os sistemas alimentares estão no cerne da crise hídrica global. Cerca de 70% da água doce consumida no mundo é utilizada na agricultura, grande parte dela no Sul Global. As águas subterrâneas fornecem cerca de 50% da água para consumo doméstico e mais de 40% da água para irrigação em todo o mundo. Tanto a água potável quanto a produção de alimentos dependem fortemente de aquíferos que estão sendo esgotados mais rapidamente do que sua capacidade de recarga. A produção global de alimentos está cada vez mais exposta à diminuição e à degradação dos recursos hídricos. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em áreas onde o armazenamento total de água já está diminuindo ou instável. Mais de 170 milhões de hectares de terras agrícolas irrigadas, o equivalente à área combinada da França, Espanha, Alemanha e Itália, estão sob estresse hídrico alto ou muito alto. A salinização degradou aproximadamente 82 milhões de hectares de terras agrícolas de sequeiro e 24 milhões de hectares de terras agrícolas irrigadas, comprometendo a produtividade em importantes regiões produtoras de alimentos do mundo. Os impactos da seca estão se tornando cada vez mais causados ​​pela ação humana e extremamente dispendiosos. O relatório identifica um padrão crescente de seca antropogênica, ou seja, déficits hídricos causados ​​pelo uso excessivo e pela degradação, e não apenas pela variabilidade natural. Esses impactos já custam cerca de US$ 307 bilhões por ano, mais do que o PIB anual de quase três quartos dos Estados-membros das Nações Unidas. A crise hídrica global também representa um desafio em termos de justiça, segurança e economia política. Sem um compromisso deliberado com a equidade, os custos do ajuste recairão desproporcionalmente sobre agricultores, comunidades rurais, povos indígenas, moradores de áreas urbanas informais, mulheres, jovens e outros grupos vulneráveis. Esse desequilíbrio aumenta o risco de agitação social e conflitos em muitas regiões. Os governos precisam urgentemente mudar o foco da gestão de crises para a gestão de falências. O relatório apela ao fim do pensamento emergencial de curto prazo. Em vez disso, defende estratégias que previnam danos irreversíveis adicionais, reduzam e realoquem a demanda, transformem os setores que consomem muita água, combatam as captações ilegais e a poluição e garantam transições justas para as pessoas cujos meios de subsistência precisam ser alterados. A atual agenda global da água já não é adequada para o Antropoceno. Um foco restrito em água potável, saneamento e pequenos ganhos de eficiência não será suficiente para resolver os crescentes riscos hídricos. Na verdade, essa abordagem limitada comprometerá cada vez mais o progresso em ações climáticas, proteção da biodiversidade, gestão da terra, segurança alimentar e paz. A água pode ser uma ponte em um mundo fragmentado. Todos os países, setores e comunidades dependem de água doce. Investir na gestão da escassez hídrica torna-se, portanto, um investimento na estabilidade climática, na proteção da biodiversidade, na recuperação de terras, na segurança alimentar, no emprego e na harmonia social. Essa dependência compartilhada oferece uma base comum prática para a cooperação entre o Norte e o Sul e para além das divisões políticas dentro das nações. Os líderes mundiais são instados a usar os próximos marcos da ONU relacionados à água como pontos de virada decisivos. O relatório apela aos governos e ao sistema das Nações Unidas para que utilizem as Conferências da ONU sobre Água de 2026 e 2028, a conclusão da Década de Ação pela Água em 2028 e o prazo de 2030 para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a fim de redefinir a agenda global da água. O relatório defende o reconhecimento formal da falência global dos recursos hídricos, um monitoramento e diagnóstico mais robustos e um esforço renovado para posicionar a água como uma ponte para a paz, a ação climática, a proteção da biodiversidade e a segurança alimentar em um mundo cada vez mais fragmentado. Mensagens-chave de política O mundo já se encontra em estado de “falência hídrica”. Em muitas bacias hidrográficas e aquíferos, o uso excessivo e a degradação a longo prazo impedem a restauração realista dos níveis hidrológicos e ecológicos anteriores. Embora nem todas as bacias ou países estejam em situação de falência hídrica, um número suficiente de sistemas críticos em todo o mundo já ultrapassou esses limites e está interligado por meio do comércio, da migração, das retroalimentações climáticas e das dependências geopolíticas, de modo que o cenário de risco global está agora fundamentalmente alterado. A linguagem comum de “estresse hídrico” e “crise hídrica” já não é adequada. Estresse descreve alta pressão que ainda é reversível. Crise descreve choques agudos e com duração definida. A falência hídrica deve ser reconhecida como um estado pós-crise distinto, onde os danos acumulados e a sobrecarga comprometeram a capacidade de recuperação do sistema. A gestão de falências no setor de água deve abordar a insolvência e a irreversibilidade. Ao contrário da gestão de falências financeiras, que lida apenas com a insolvência, a gestão de falências no setor de água preocupa-se com o reequilíbrio entre a oferta e a procura em condições em que o retorno às condições anteriores já não é possível. A seca antropogênica é central para a nova realidade hídrica mundial. A seca e a escassez de água são cada vez mais impulsionadas por atividades humanas, superexploração, esgotamento de águas subterrâneas, degradação do solo e da terra, desmatamento, poluição e mudanças climáticas, e não apenas pela variabilidade natural. A falência hídrica é o resultado de secas antropogênicas de longo prazo, e não apenas de azar com anomalias hidrológicas. A crise hídrica afeta tanto a quantidade quanto a qualidade dos recursos hídricos. A diminuição dos estoques, a poluição dos rios, a degradação dos aquíferos e a salinização do solo significam que a fração realmente utilizável da água disponível está reduzindo, mesmo onde os volumes totais possam parecer estáveis. Gerir a falência no setor hídrico exige uma mudança de paradigma, passando da gestão de crises para a gestão da falência. A prioridade já não é "voltar ao normal", mas sim prevenir danos irreversíveis adicionais, reequilibrar direitos e reivindicações dentro de capacidades de suporte degradadas, transformar os setores e modelos de desenvolvimento que consomem muita água e apoiar transições justas para os mais afetados. As instituições de governança devem proteger tanto a água quanto o capital natural subjacente. As instituições existentes concentram-se na proteção da água como um bem ou serviço, desconsiderando o capital natural que a torna disponível em primeiro lugar. Os esforços para proteger um produto são ineficazes quando os processos que o produzem são interrompidos. Reconhecer a falência hídrica exige o desenvolvimento de instituições jurídicas e de governança que possam proteger efetivamente não apenas a água, mas também o ciclo hidrológico e o capital natural que possibilitam sua produção. A escassez hídrica é uma questão de justiça e segurança. Os custos da sobrecarga e da irreversibilidade recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, as comunidades rurais e indígenas, os moradores de áreas urbanas informais, as mulheres, os jovens e os usuários a jusante, enquanto os benefícios muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos. A forma como as sociedades lidam com a escassez hídrica moldará a coesão social, a estabilidade política e a paz. A gestão de falências hídricas combina mitigação com adaptação. Enquanto os paradigmas de gestão de crises hídricas buscam retornar o sistema às condições normais apenas por meio de esforços de mitigação, a gestão de falências hídricas concentra-se em restaurar o que é possível e prevenir maiores danos por meio da mitigação combinada com a adaptação às novas realidades e restrições. A água pode servir como uma ponte em um mundo fragmentado. Ela pode alinhar prioridades nacionais com prioridades internacionais e melhorar a cooperação entre e dentro das nações. Cerca de 70% da água doce retirada globalmente é utilizada para a agricultura, grande parte por agricultores do Sul Global. Dar mais destaque à água nos debates políticos globais pode ajudar a reconstruir a confiança entre o Sul e o Norte, mas também dentro das nações, entre áreas rurais e urbanas, entre a esquerda e a direita. A água deve ser reconhecida como um setor a montante. A maioria das agendas políticas nacionais e internacionais trata a água como um setor de impacto a jusante, onde os investimentos se concentram na mitigação dos problemas e externalidades impostos. O mundo precisa reconhecer a água como um setor de oportunidades a montante, onde os investimentos trazem benefícios a longo prazo para a paz, a estabilidade, a segurança, a equidade, a economia, a saúde e o meio ambiente. A água é um meio eficaz para cumprir a agenda ambiental global. Os investimentos no combate à escassez hídrica trazem importantes benefícios colaterais para os esforços globais no enfrentamento dos problemas ambientais, ao mesmo tempo que atendem às preocupações de segurança nacional dos Estados-membros da ONU. Elevar a importância da água na agenda política global pode renovar a cooperação internacional, aumentar a eficiência dos investimentos ambientais e acelerar o progresso interrompido das três Convenções do Rio para enfrentar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a desertificação. Uma nova agenda global para a água é urgentemente necessária. As agendas existentes e as políticas hídricas convencionais, focadas principalmente em água, saneamento e higiene (WASH), ganhos incrementais de eficiência e diretrizes genéricas de gestão integrada de recursos hídricos (GIRH), não são suficientes para a atual realidade hídrica mundial. É preciso desenvolver uma nova agenda para a água que tome a crise hídrica global como ponto de partida e utilize as Conferências da ONU sobre Água de 2026 e 2028, a conclusão da Década de Ação pela Água em 2028 e o cronograma do ODS 6 para 2030 como marcos para redefinir a forma como o mundo entende e governa a água. Informações do relatório Falência global da água: Vivendo além de nossos meios hidrológicos na era pós-crise, Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), Richmond Hill, Ontário, Canadá, doi: 10.53328/INR26KAM001   Documento de apoio Madani K. (2026) Falência Hídrica: A Definição Formal, Gestão de Recursos Hídricos, 40 (78) doi: 10.1007/s11269-025-04484-0   Contatos para a imprensa: Kyra Bowman, chefe de comunicações da UNU, bowman@unu.edu   William Smyth , Coordenador de Relações com o Público e Assistente Pessoal do Diretor, william.smyth@unu.edu   Disponível para entrevista: Professor Kaveh Madani , Diretor, UNU-INWEH   Sobre a UNU-INWEH O Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas ( UNU-INWEH ) é uma das 13 instituições que compõem a Universidade das Nações Unidas (UNU), o braço acadêmico da ONU. Conhecido como o "Centro de Estudos da ONU sobre Água", o UNU-INWEH aborda desafios críticos relacionados à água, ao meio ambiente e à saúde em todo o mundo. Por meio de pesquisa, treinamento, desenvolvimento de capacidades e disseminação de conhecimento, o instituto contribui para a solução de questões urgentes de sustentabilidade global e segurança humana que preocupam a ONU e seus Estados-Membros. Com sede em Richmond Hill, Ontário, a UNU-INWEH é acolhida e apoiada pelo Governo do Canadá desde 1996. Com um mandato global e extensas parcerias com entidades da ONU, organizações internacionais e governos, a UNU-INWEH opera por meio de seus Centros UNU em Calgary, Hamburgo, Nova York, Lund e Pretória, e uma rede internacional de afiliados. Fonte: ONU

  • Oceano está virando 'piscina quente' ao estocar calor do planeta, alertam cientistas

    Mares absorvem até 90% do aquecimento global gerado pelos gases estufa, componentes da fumaça da queima de combustíveis como petróleo e carvão Dados revelados em um artigo científico publicado neste começo de ano mostram o impacto do aquecimento global sobre os oceanos. Usado como referência pela OMM (Organização Meteorológica Mundial), o estudo liderado por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências, e participação de cientistas de todo o mundo, mostra como os mares estão se tornando uma perigosa “bateria”, guardando o calor aprisionado no planeta pelos gases estufa da queima de combustíveis fósseis. “Não está marcado em uma régua, mas o oceano tem limite para absorver calor. Se continuar assim, os oceanos vão parar de absorver calor em algum momento e as temperaturas da atmosfera vão subir, gerando mais extremos climáticos”, afirma pesquisadora Regina Rodrigues, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e integrante do IPCC, painel da ONU que monitora a mudança climática. Marinez Scherer, enviada especial para os oceanos na COP30 e também professora da UFSC, lembra que sob essa pressão de forma prolongada o oceano pode perder a capacidade de fornecer pescado para alimentação humana, além de gradualmente deixar de atuar como parceiro da sociedade na regulação do clima, moderando ondas de calor e ciclos de chuva, por exemplo. “Ou usamos ele [o oceano] como aliado, saudável, ou teremos um problema. Ele, disfuncional, pode regular o clima na direção que não queremos.” A pesquisa publicada no periódico Advances in Atmospheric Sciences indica que em 2025 foi atingido um recorde no OHC, sigla em inglês para conteúdo de calor no oceano. Esse indicador examina águas a até 2 mil metros de profundidade, e revela o quanto de energia térmica se acumula nesta zona. Em comunicado sobre o clima em 2025, publicado no último dia 14 , a OMM reforçou o dado de que o ano passado ficou entre os três mais quentes já registrados , e trouxe alertas sobre o reflexo disso nos oceanos. Segundo a agência da ONU, cerca de 90% do excesso de calor resultante do aquecimento global é armazenado nos oceanos, tornando o calor oceânico um indicador crucial das mudanças climáticas . Em um ano, o nível global de OHC aumentou aproximadamente 23 zettajoules em relação a 2024, considerando-se uma margem de erro de 8 zettajoules. “Isso equivale a cerca de 200 vezes a geração total de eletricidade mundial em 2024”, pontuou a OMM, demonstrando a magnitude do calor armazenado pelos oceanos. O indicador, pontua Scherer, mostra que os oceanos estão quentes como um todo, e não apenas na superfície. “Uma enorme piscina quente. A água quando esquenta, demora muito tempo para esfriar. Então, temos que parar de esquentar o mar. Mesmo que paremos de queimar combustíveis fósseis hoje, vamos ter consequências por muito tempo.” O estudo global indica que, regionalmente, cerca de 33% da área oceânica global apresentou uma das três condições mais quentes de sua história (1958-2025), enquanto cerca de 57% ficou entre as cinco mais quentes , incluindo o Oceano Atlântico tropical e do Sul, o Mar Mediterrâneo, o Oceano Índico Norte e os Oceanos Austrais, evidenciando o aquecimento generalizado dos oceanos em diversas bacias. “Só estamos com 1,5°C de aumento de temperatura porque esse excesso está indo para os oceanos, e essa medida mostra essa quantidade enorme de calor causada pelas mudanças climáticas”, afirma Rodrigues. “O conteúdo de calor é um termômetro perigoso, que mostra não só o que acontece agora mas um efeito prolongado desse calor aprisionado no oceano por muitos anos, já influenciando o aumento do nível do mar e o derretimento de gelo.” Soluções As soluções apontadas pelas cientistas passam por mudanças ambientais e políticas. A queima de combustíveis fósseis é o problema central, e abandonar estas fontes de energia o quanto antes será crucial para determinar a continuação da trajetória revelada pelos dados científicos. No quadro atual, é seguro afirmar que os oceanos possuem calor guardado para influenciar o aquecimento do planeta por décadas. No campo de políticas públicas, destaca Scherer, é vital organizar e melhorar o nível da gestão das atividades econômicas nos oceanos. Na COP30, o Brasil aderiu ao grupo de países comprometidos a reformular seu planejamento de gestão oceânica até 2030. São considerados dez setores: óleo e gás, mineração, turismo, aquicultura, pesca artesanal, energia, conservação, defesa nacional, navegação, pesca industrial. O objetivo é alinhar todos os setores levando em consideração o cenário climático, em um trabalho de integração da economia do mar. “Mundialmente temos a pesca, que precisa de organização para termos os estoques com sustentabilidade, e a mudança do clima tem um papel, pois estes estoques podem mudar. As eólicas offshore precisam ser muito bem planejados e é possível levar em conta a justiça climática para a ocupação do espaço. A própria navegação e a descarbonização das frotas, pois é uma fonte de poluição”, observa Scherer. Fonte: Um só Planeta

  • 2025 entra para a história como o terceiro ano mais quente do planeta, aponta pesquisa

    O planeta voltou a registrar níveis históricos de calor. Dados divulgados nesta quarta-feira (14) pelo observatório europeu Copernicus indicam que 2025 foi o terceiro ano mais quente já observado desde o início das medições, mantendo a sequência de 11 anos consecutivos com recordes de temperatura. De acordo com o levantamento, a temperatura média global em 2025 alcançou 14,97 °C — apenas 0,13 °C abaixo do registrado em 2024, que segue como o ano mais quente da série histórica. Em comparação com o período pré-industrial, entre 1850 e 1900, o aumento foi de 1,47 °C, valor muito próximo do limite de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris. O comportamento térmico ao longo do ano também chamou atenção dos pesquisadores. Janeiro foi o mês mais quente já registrado globalmente, enquanto março, abril e maio ficaram como os segundos mais quentes de suas respectivas séries. Apenas fevereiro e dezembro não superaram os recordes anteriores a 2023. Apesar de temperaturas ligeiramente mais baixas nos trópicos em relação a 2023 e 2024, os níveis permaneceram acima da média histórica em diversas regiões fora dessa faixa. Já nas áreas polares, o cenário foi ainda mais crítico: a Antártica teve o ano mais quente já observado, enquanto o Ártico registrou seu segundo maior patamar térmico. Recordes anuais também foram identificados em áreas como o noroeste e sudoeste do Oceano Pacífico, o nordeste do Atlântico e a Ásia Central. Na Europa, 2025 figurou igualmente como o terceiro ano mais quente da história, com média de 10,41 °C, tendo março como o mês mais quente já registrado no continente. Segundo os especialistas, os dados refletem a intensificação do aquecimento global causada pela ação humana, especialmente pela emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis. Esse acúmulo forma uma camada que retém mais calor na atmosfera, elevando as temperaturas globais. As temperaturas excepcionalmente altas da superfície dos oceanos, associadas a eventos como o El Niño e a outros padrões de variabilidade oceânica, também contribuíram para o cenário. Mudanças na presença de aerossóis, na cobertura de nuvens e na circulação atmosférica completam o conjunto de fatores apontados pelos cientistas. Com o ritmo atual de aquecimento, os pesquisadores alertam que o limite de 1,5 °C do Acordo de Paris pode ser atingido já por volta de 2030, mais de dez anos antes do previsto inicialmente. A projeção amplia a preocupação com impactos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, incêndios florestais e chuvas intensas, com consequências diretas para o meio ambiente e para a vida humana. Fonte: Jornal de Brasília

  • O Café da Frente: onde a política ambiental encontra sua voz

    O tradicional Café da Frente Ambientalista tornou-se, ao longo dos anos, muito mais que um encontro. É um espaço de articulação política, de troca entre mandatos, movimentos sociais, especialistas, representantes de biomas e organizações da sociedade civil , um território de diálogo que respira democracia. Entre uma xícara e outra, nascem agendas legislativas, pactos pela proteção dos biomas, propostas de transição justa e compromissos pela defesa do clima. Ali, a política se faz próxima: parlamentares, assessorias e convidados circulam livremente, ouvindo demandas, construindo consensos e abrindo caminhos para que a pauta socioambiental avance com força no Congresso Nacional. O Café da Frente já ocupou o Salão Nobre, auditórios, salas de comissões e espaços diversos do parlamento. Mas, independentemente do lugar, mantém sempre o mesmo espírito: acolher, aproximar e promover alianças capazes de transformar debates em ação. É nesse ambiente plural, afetivo e profundamente político  que a Frente Parlamentar Mista Ambientalista celebra conquistas, enfrenta retrocessos e fortalece sua missão: defender os territórios, os povos e o futuro ambiental do Brasil.

  • COP30 e o legado da Amazônia para o Clima

    A COP30, sediada em Belém, não foi apenas uma cúpula diplomática; foi um marco de resiliência e reconhecimento para os povos indígenas e comunidades tradicionais (PICTs) brasileiras. Como advogada e especialista em política climática, testemunhei um avanço que transcende as promessas de carbono neutro, cimentando o papel desses povos como protagonistas na luta contra a crise climática. O que fica, além das negociações entre nações, é um legado de direitos, tecnologia e articulação política, que deve servir de bússola para a próxima década de ação climática global. O ponto alto de reconhecimento, sem dúvida, foi a inclusão e a aprovação, na Cúpula de Líderes, de um texto fundamental: a Declaração de Belém sobre o combate contra o racismo ambiental. Essa vitória política e jurídica lança luz sobre como as crises climáticas e ambientais afetam de forma desproporcional as populações marginalizadas, que são as que menos contribuem para a mudança do clima. Trata-se de um reconhecimento explícito, em nível global, de que a justiça climática passa necessariamente pelo combate à discriminação estrutural que expõe quilombolas, ribeirinhos e indígenas a riscos ambientais agravados. É o atestado de que a política climática não pode ser neutra; ela precisa ser antirracista e justa em sua essência. Paralelamente, avançamos em discussões cruciais sobre iniciativas de energia renovável que são localmente apropriadas e sustentáveis. Tenho escrito e defendido que esse é um avanço fundamental: levar soluções energéticas limpas e descentralizadas diretamente para comunidades que protegem as florestas através da sociobioeconomia e agricultura familiar local. São projetos de energia solar e infraestruturas locais como acesso à água potável e internet que garantem não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a resiliência, segurança energética e alimentar, fortalecendo o potencial de adaptação, a autonomia econômica das famílias e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis como geradores a diesel. É a tecnologia limpa a serviço da sabedoria ancestral, garantindo o poder de escolha sobre o próprio modelo de desenvolvimento. A força da sociedade civil foi expressa de forma clara no Círculo dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, realizado em paralelo à conferência oficial. Este espaço consolidou-se como o verdadeiro pulmão político da COP, onde as vozes ancestrais delinearam caminhos claros para a política global. O legado desse Círculo é a comprovação prática de que o conhecimento tradicional é, frequentemente, a solução mais eficaz e urgente para a mitigação e adaptação. Esse legado nos impõe um desafio para o futuro. Na preparação para as próximas Conferência das Partes, o movimento global deve focar e exigir que os países-sede sejam aqueles que demonstrem respeito às mulheres, aos povos indígenas e comunidades tradicionais nas agendas temáticas da conferência. O anfitrião de uma COP não pode ignorar essas agendas de acordo com políticas e conveniências nacionais. A credibilidade da agenda global climática, em última análise, depende dessa coerência. A COP30 nos deixou mais do que declarações protocolares; deixou bases jurídicas e sociais para uma política climática realmente justa. O texto aprovado contra o racismo ambiental, a visibilidade e articulação do Círculo dos Povos, e o impulso às renováveis para fortalecimento da sociobioeconomia local formam o tripé de um legado que precisa ser monitorado e expandido com urgência. O Brasil mostrou a força de seus guardiões. Agora, a tarefa é assegurar que esse novo patamar de reconhecimento se materialize não somente nas negociações , mas em proteção fundiária efetiva, investimentos contínuos e o respeito aos direitos territoriais de quem tem mantido as florestas em pé. Marina Marçal, especialista em política climática e membro do conselho consultivo da Frente Parlamentar Ambientalista Marina Marçal, especialista em política climática e membro do conselho consultivo da Frente Parlamentar Ambientalista

  • Parque Nacional do Iguaçu bate recorde com mais de 2 milhões de visitantes em 2025

    O lar das Cataratas do Iguaçu recebeu 2.058.539 visitantes ao longo do ano de 207 países e chega ao maior patamar da história. Maioria dos turistas é de origem do Brasil Um dos destinos de natureza mais procurados do país, o Parque Nacional do Iguaçu (PR), lar das Cataratas, somou um total de 2.058.539 visitantes em 2025, o que representa um aumento de 8,7% em relação ao ano anterior e o maior patamar da história do parque. Os turistas vieram de 207 países diferentes, outro recorde para visitação na área protegida. Mais da metade dos visitantes, entretanto, são de origem brasileira. Paraná, São Paulo e Santa Catarina são os estados que lideram a origem dos turistas. Patrimônio Mundial Natural, as Cataratas do Iguaçu são apenas um dos atrativos do parque, que abriu em 2025 novos passeios como a Ciclovia das Cataratas, com 11,6 quilômetros em meio à Mata Atlântica; o Circuito São João, com possibilidade de banho em cachoeira; o Espaço Usina, estrutura revitalizada da Usina São João, a primeira do município paranaense de Foz do Iguaçu; o Bike Iguaçu, serviço de locação de bicicletas para passeio por trilhas e caminhos do parque; e o Céu das Cataratas, experiência noturna de astroturismo. Fonte: O Eco

bottom of page