Clima deve orientar novo pacto pela produtividade do Brasil, defendem especialistas
- há 18 minutos
- 3 min de leitura
Debate reuniu representantes do setor privado, academia e sociedade civil, que defenderam a integração da agenda climática às estratégias de crescimento econômico e competitividade do país

Encerrando dois dias de debates sobre produtividade e sustentabilidade promovidos pelo Instituto Itaúsa, um painel reuniu a cientista política Mônica Sodré, da Meridiana, o conselheiro Vicente Assis, do Instituto Itaúsa, e a CEO da Fundação Arymax, Vivianne Naigeborin, para discutir governança, compromissos e próximos passos rumo a um Brasil mais produtivo e sustentável. A mediação foi de Marcelo Furtado.
Um dos pontos centrais do debate foi o alerta de que o país ainda trata a mudança do clima como um tema ideológico, e não como uma questão econômica estrutural. "Nós continuamos em um estado de negação. O clima vai desorganizar e reorganizar absolutamente a capacidade produtiva desse país", afirmou Mônica Sodré, que atua apoiando a tomada de decisão de parlamentares brasileiros em temas de segurança alimentar, energética e mineral.
Segundo ela, partes do território vão secar e outras vão encher, sem que o país tenha hoje instrumentos de planejamento à altura desse cenário. A executiva citou que o Brasil tem quase um quarto do PIB atrelado ao agronegócio — o setor mais exposto e mais vulnerável à mudança do clima — e defendeu que qualquer "pacto pela economia do Brasil" tenha o clima como componente essencial, não apenas por razão ambiental, mas porque se tornou um elemento econômico decisivo para a resiliência do país nas próximas décadas.
Sodré também apontou a instabilidade regulatória como um entrave direto à produtividade, sobretudo em setores de ciclo longo como energia e mineração, com projetos de 20 a 30 anos. "É muito difícil fazer negócios no país porque a regra muda com muita frequência (...) Isso manda um sinal de desincentivo para o capital", disse.
A executiva relatou ainda a dificuldade de pautar o tema junto a parlamentares, citando o caso de um senador que, ao ser questionado sobre os efeitos de uma política em dez anos, respondeu que o horizonte que importava era o da eleição daquele ano. Para ela, sustentabilidade tem sido tratada por parte da classe política como discurso "ambientalista" ou "de esquerda" — o que, na sua avaliação, trava avanços em temas como biocombustíveis, hoje limitados por um debate antigo sobre concorrência com a produção de alimentos.
Governança de recursos estratégicos também entrou na pauta climática do painel. Sodré citou os minerais críticos e estratégicos — nos quais o Brasil concentra parte das reservas mundiais disputadas no processo de transição energética — como exemplo de um vácuo regulatório: a política nacional do setor ainda não foi aprovada, enquanto estados como Minas Gerais e Goiás já fazem concessões de forma autônoma a empresas estrangeiras, gerando questionamentos no Supremo Tribunal Federal. Ela citou também o descompasso entre o licenciamento ambiental, de competência estadual, e as áreas afetadas por novas linhas de transmissão de energia, muitas vezes municipais, como um exemplo do mesmo problema de coordenação federativa.
O conselheiro Vicente Assis, do Instituto Itaúsa, conectou a resposta ao desafio climático à equação da produtividade que voltou como fio condutor do painel: para ele, o único caminho para gerar riqueza — e, com ela, capacidade de enfrentar a mudança do clima — é elevar a produtividade, já que o crescimento populacional deixou de ser uma alavanca. Assis defendeu que tecnologias como a inteligência artificial só geram valor quando aplicadas a problemas concretos de produtividade, e não a iniciativas genéricas de capacitação sem foco definido.
Ao final do painel, Sodré precisou deixar o evento antes do encerramento para participar de outra sessão do fórum, e aproveitou para agradecer publicamente a equipe do Instituto Itaúsa pelo relatório Brasil 2 Graus, citado por ela como referência do trabalho da instituição na interface entre economia e clima.
Fonte: Um só Planeta
.png)