A adaptação climática começa antes do desastre
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Diante de um clima cada vez mais extremo, talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que precisamos fazer: não esperar o próximo desastre para agir.

A adaptação climática não pode começar quando a emergência já está instalada. Quando os rios atingem níveis críticos, o fogo avança sobre a floresta ou comunidades ficam sem acesso à água, parte das oportunidades de prevenção já foi perdida. O cenário de 2026 reforça essa urgência.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), um El Niño forte está em desenvolvimento e deve se intensificar nos próximos meses. Para a Amazônia, esse cenário amplia a preocupação com temperaturas elevadas, redução das chuvas, secas mais severas e maior risco de incêndios florestais. Diante de previsões cada vez mais precisas, o desafio é transformar informação climática em prevenção e preparação dos territórios.
Não é um risco abstrato. A região ainda guarda as marcas da seca extrema de 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis históricos, comunidades ficaram isoladas e os impactos alcançaram transporte, abastecimento de água, produção de alimentos, educação e saúde.A diferença é que, desta vez, temos a possibilidade de nos antecipar.
Em junho, participei em Bonn, na Alemanha, das discussões preparatórias para a COP31, que será realizada em novembro, na Turquia. Contribuí para esse debate com uma reflexão que considero central para o avanço da agenda de adaptação: como transformar compromissos globais em ações concretas nos territórios mais vulneráveis? Financiamento, metas e mecanismos internacionais são indispensáveis, mas precisam resultar em soluções que cheguem efetivamente às populações que já enfrentam os impactos das mudanças climáticas.
Na Amazônia, parte dessa resposta já começou a ser construída. Ao longo de 2025, a Jornada para a COP30, um processo de mobilização territorial reuniu 1.285 participantes, sendo 53,9% mulheres, e resultou na elaboração de 99 Planos de Ação Climática Territorial. Sessenta desses planos foram analisados em profundidade para identificar prioridades, custos e possibilidades de ampliação.
O principal aprendizado é simples: as comunidades devem ser apoiadas para identificar quais são seus principais riscos e quais soluções precisam ser implementadas.
Entre as prioridades estão sistemas comunitários de abastecimento de água e saneamento, energia renovável, conectividade, fortalecimento da produção sustentável, sistemas agroflorestais, proteção territorial e prevenção e combate aos incêndios. São ações que, isoladamente, podem parecer apenas investimentos em infraestrutura ou desenvolvimento local. Na prática, formam uma estratégia de adaptação climática.
Uma comunidade com acesso seguro à água enfrenta melhor uma seca extrema. Energia permite manter sistemas de abastecimento alimentar, geração de renda, comunicação e serviços essenciais. A conectividade amplia o acesso a informações, educação e saúde e ações de emergência. Sistemas produtivos mais diversificados reduzem a vulnerabilidade diante das alterações do clima. Brigadas capacitadas e investimentos em prevenção diminuem os riscos associados aos incêndios florestais.
Por isso, adaptação climática precisa ser tratada de forma sistêmica.
A análise dos planos permitiu estimar que seriam necessários aproximadamente R$ 200 a 300 mil por comunidade para implementar ações de adaptação em comunidades amazônicas, alcançando aproximadamente 10 mil comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos. Esses resultados também contribuíram para o relatório “Adaptação e Mitigação Climática: um foco nos guardiões das florestas da Amazônia”, apresentado na COP30 como uma contribuição ao debate sobre adaptação climática na região Pan-Amazônica.
O documento reuniu evidências e propostas voltadas aos povos da floresta e foi publicado como uma primeira versão para discussão, com previsão de aprofundamento até a COP31.
Pode parecer um valor elevado, mas precisa ser colocado em perspectiva diante da dimensão do desafio. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que os países em desenvolvimento precisarão de centenas de bilhões de dólares por ano para adaptação nas próximas décadas, enquanto o financiamento disponível continua muito abaixo dessa necessidade.
O desafio não é apenas aumentar o volume de recursos. É fazer com que eles consigam chegar aos territórios. E isso exige mecanismos financeiros mais acessíveis, apoio técnico, continuidade e capacidade de transformar pequenos projetos isolados em programas de escala territorial.
Também exige uma mudança na forma como enxergamos a adaptação.
Durante muito tempo, reagimos aos eventos extremos depois que eles acontecem. A seca chega, o rio baixa, o incêndio começa e então mobilizamos recursos emergenciais. Precisamos inverter essa lógica.
Se a ciência indica hoje a possibilidade de um El Niño muito forte, não devemos esperar seus impactos para decidir o que fazer. A previsão climática deve servir para antecipar investimentos, preparar sistemas de abastecimento de água, fortalecer brigadas de incêndio, aumentar a resiliência de sistemas produtivos e fortalecer a capacidade de resposta das comunidades.
É exatamente para isso que servem os planos locais de adaptação. Eles transformam o saber local em prioridades concretas de investimento. Permitem substituir a improvisação pela preparação e a resposta emergencial pela prevenção.
Na Amazônia, esse caminho já começou a ser desenhado. O que falta agora é transformar planejamento em implementação. Diante de um clima cada vez mais extremo, talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que precisamos fazer: não esperar o próximo desastre para agir.
Fonte: Um só Planeta
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