Em nova carta, Corrêa do Lago defende mudança na forma de trabalhar a agenda climática, com lições vindas da COP30
- Frente Parlamentar Ambientalista
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O presidente da COP30 acredita que a governança climática deve mudar em momento de agravamento da crise geopolítica, mas reforçou que os papéis das COPs na tomada de decisões formais, na coordenação universal e na construção de momentum permanecem reais, eficazes e necessários

Em uma nova carta, a 12ª, à comunidade internacional, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, abordou a estrutura do multilateralismo focado na urgência climática, em outras palavras, na forma como as conferências do clima e as demais discussões e ações envolvendo a agenda de mudanças climáticas operam.
O executivo explicou que a COP30, principal conferência que trata de clima da ONU, realizada em Belém (PA) no ano passado, foi importante inclusive para lançar luz sobre os limites do multilateralismo climático e da tomada de decisões por consenso.
“À medida que avançamos em nosso trabalho em 2026, que encaremos esses limites não como fronteiras intransponíveis, mas como sinais valiosos, que nos ensinam que o multilateralismo climático amadureceu e está pronto para evoluir”, diz.
Para o executivo, que segue na liderança dos trabalhos ao lado da nova liderança da conferência do clima de 2026 (COP31), de Austrália/Turquia, é preciso desenvolver uma nova abordagem, em dois níveis: centrada no consenso e na aceleração da implementação.
“O multilateralismo precisa ganhar a velocidade necessária para acompanhar o aquecimento global, sem comprometer a tomada de decisões por consenso como fonte de legitimidade, universalidade e direito internacional”, apontou.
Na carta, o diplomata citou que, com a decisão 1/CMA.7, a CMA resolve formalmente “promover de forma decisiva a transição para um foco na implementação do Acordo de Paris e das decisões adotadas desde sua primeira sessão”.
Ele se refere a uma resolução importante da CMA (Conferência das Partes atuando como Reunião das Partes do Acordo de Paris) em sua sétima sessão (CMA.7), que tratou de temas cruciais como o Global Stocktake (GST), o novo Programa de Trabalho sobre Transição Justa (Just Transition Work Programme) e a implementação de programas de trabalho para ambição climática, sendo um marco nas discussões globais sobre a ação climática sob o Acordo de Paris.
“É por isso que o multilateralismo climático pode agora ser aprimorado para operar em duas velocidades complementares”, reitera Corrêa do Lago.
No modelo institucional em duas velocidades, a primeira, defende o presidente da COP30, permanece ancorada no consenso multilateral, garantindo legitimidade, segurança jurídica e direção coletiva, enquanto a segunda se concentra na implementação, permitindo que coalizões voluntárias e atores preparados mobilizem recursos, executem soluções e gerem aprendizado em escala, sem reabrir acordos já consolidados.
Nesse segundo eixo, a prioridade seria acelerar a mobilização e a coordenação de financiamento, tecnologia, capacitação e políticas públicas para destravar mudanças em larga escala e efeitos em cascata entre setores, impulsionando “pontos de inflexão positivos” em áreas de alto impacto, como redução de gases não CO₂, restauração de ecossistemas, sistemas de alerta precoce, infraestrutura pública digital e fortalecimento institucional.
Corrêa do Lago também defendeu o papel da COP na tomada de decisões formais, na coordenação universal e na construção de momentum permanecem reais, eficazes e necessários.
Sem perda de tempo
A governança climática, em sua opinião, deve mudar em momento de agravamento da crise geopolítica, como a que o mundo está passando, citando “transições sistêmicas” em diversas áreas, como geopolítica, sociedades, economias, finanças, culturas, tecnologia e sistemas de informação. “A urgência climática não esperará até que as condições políticas e socioeconômicas se tornem ideais”, afirma.
Corrêa do Lago fez ainda uma menção à sabedoria iorubá para reforçar o ponto. “Como evocam a tradição afro-brasileira e a sabedoria iorubá por meio da figura de Ogum, o ferreiro, os momentos de transição não são aqueles em que o ferro se rompe, mas em que é colocado na forja. O multilateralismo climático chegou a esse ponto.”
Pontuou que a agenda climática não tem tempo de esperar “soluções impostas por decreto”. “À medida que nos afastamos de uma ênfase na negociação, a implementação não pode aguardar unanimidade em cada etapa operacional”, diz.
Mas reiterou que a COP30 contribui para que a ação climática ultrapassou “de forma irreversível” os limites do direito internacional, das salas de negociação e de relatórios técnicos. “De nicho ao centro das agendas, foram criadas as condições para uma transição estrutural global em direção a um desenvolvimento de baixo carbono e resiliente ao clima.
Lições e avanços da COP30
Corrêa do Lago contextualizou dizendo que a COP30 demonstrou que “um novo modelo de resposta global está em formação – profundamente entrelaçado ao seu contexto e capaz de tornar a implementação climática cada vez mais onipresente, assim como já o são os impactos do aquecimento global”.
Para ele, a conferência marcou a transição do regime climático internacional de quase três décadas centrado em negociações para uma nova fase orientada à implementação, em um contexto de crescentes desafios geopolíticos e socioeconômicos. A chamada “COP da Verdade” promoveu um debate inédito sobre a dependência dos combustíveis fósseis e assumiu a responsabilidade de construir roteiros para uma transição justa, ordenada e equitativa, além de estratégias para interromper e reverter o desmatamento.
Também foi uma presidência focada em integrar a agenda climática a temas estruturais como estabilidade financeira, desenvolvimento, comércio, energia, tecnologia, inclusão social e combate às desigualdades, guiada pelo objetivo de fortalecer o multilateralismo, aproximá-lo da sociedade e acelerar a entrega de resultados.
Elencou alguns feitos da COP30, “COP da implementação”, a exemplo da forte mobilização global, considerada, segundo ele, uma das mais participativas da história, alcançando quase 200 milhões de pessoas no ambiente digital e reunindo cerca de 300 mil visitantes na Zona Verde, em Belém. A Agenda de Ação mobilizou mais de 480 iniciativas em 190 países, e as negociações formais resultaram em 56 decisões por consenso.
Entre os avanços, ele citou a captação de mais de US$ 6,6 bilhões junto a países para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF); o lançamento do Acelerador Global de Implementação; a definição de indicadores para o Objetivo Global de Adaptação e o reforço da inclusão de povos indígenas e comunidades afrodescendentes nas decisões climáticas.
O Acelerador Global de Implementação, criado na Decisão Mutirão da COP30 e que será coorganizado com as Presidências-designadas da COP31, pode servir como protótipo para incorporar uma nova velocidade institucional ao multilateralismo climático ao destravar velocidade, escala e sequenciamento estratégico, acredita.
O embaixador destacou especificamente o compromisso de desenvolver mapas do caminho para a transição dos combustíveis fósseis e para interromper e reverter o desmatamento. “Longe de uma moralização do debate climático, esses roteiros tratam, antes de tudo, de planejamento e estabilidade”, afirmou Corrêa do Lago. “Quando bem conduzido, esse planejamento pode reduzir riscos sistêmicos, proteger balanços patrimoniais e fortalecer a confiança. Quando mal conduzidas, essas mesmas transições podem resultar em desordem, ruptura social, volatilidade e colapso abrupto no valor de ativos financeiros”.
Leia a 12ª Carta do Presidente da COP30 na íntegra AQUI.
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