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Qui, 16 de Fevereiro de 2012 08:53

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O aquecimento global pode dificultar a sobrevivência, na Antártida, de peixes que são a principal fonte de alimento para pinguins e algumas espécies de baleias e focas

Pinguins avistados na Antártida: esses animais podem ser alguns dos mais prejudicados com o desaparecimento dos peixes nototenioides

As regiões polares são os locais onde se observa o maior aumento de temperatura do ambiente, devido às mudanças climáticas. Enquanto no planeta a elevação média nos últimos 50 anos foi de 0,8ºC, na Antártida, o aquecimento foi 2ºC e, no Ártico, de 5ºC. Inicialmente, os números não parecem alarmantes, mas podem colocar em risco a vida de um grupo específico e muito importante de peixes que vivem no Polo Sul: os nototenioides, base alimentar de diversos animais e peça-chave para o equilíbrio ecológico da região.

Esses peixes, adaptados para viverem em águas com temperaturas extremamente baixas e para suportarem os altos níveis de radiação ultravioleta em seu hábitat, podem sofrer estresse psicológico devido ao "calor", como constatou uma equipe de pesquisadores de diversos países, liderados por um cientista da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. O estudo, publicado nesta semana na edição on-line da revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), inicialmente tinha como objetivo apenas compreender como os nototenioides evoluíram para viver na região.

"De fato, conseguimos analisar seu processo evolutivo, mas, durante a pesquisa, notamos que, devido ao padrão desses peixes de se adequarem às condições polares, a tendência de o Oceano Antártico se aquecer representa uma ameaça para as espécies", comenta Thomas Near, principal autor do estudo e professor de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Yale.

Como esses animais são a principal fonte de alimentação de pinguins, algumas espécies de baleias e focas, a redução de sua população pode levar a um desequilíbrio ecológico na região. Near descreve que as temperatura mais elevadas, além de causarem estresse nos peixes, vão permitir que outras espécies não antárticas colonizem as águas do Polo Sul. "Não sabemos o que pode ser feito, além da prevenção do aquecimento do Oceano Antártico, para evitar a extinção dos nototenioides", lamenta o pesquisador de Yale.

O diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em mudanças climáticas, Saulo Rodrigues Filho, considera o estudo um importante alerta. "Na Antártida, há a possibilidade de extinção desses peixes e o grande potencial de aceleração da elevação do nível do mar - causada pelo derretimento das geleiras do oeste da região. Esse fator, em especial, coloca em risco diversas costas ao redor do globo, onde o nível do mar pode aumentar entre 20cm e 70cm até o final deste século", afirma.

Para o especialista em bioprospecção de moléculas bioativas de peixes da Antártida Luciano Paulino Silva, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a situação pode não ser tão catastrófica se os peixes conseguirem se adaptar ao novo clima. "Os nototenioides ocupam o ambiente antártico há milhões de anos e, durante esse período, enfrentaram inúmeras mudanças climáticas na região. Apesar de a ciência ainda não ter como prever a extensão das alterações no clima esperadas para os próximos anos, não seria de se admirar que esse grupo ainda fosse capaz de suportar essas mudanças extremas", analisa. Silva - que também conduz uma pesquisa sobre os nototenioides (leia entrevista) -, no entanto, considera que a análise comandada por Near é válida.

Silva concorda que, apesar de a queima de combustíveis fósseis ter se mostrado uma das responsáveis por aumentar a temperatura dos oceanos, não se sabe ao certo a real contribuição dos humanos para o processo de aquecimento global. "Por esse motivo, é muito difícil pensarmos em como podemos atuar para combater o problema", ressalta. O pesquisador da Embrapa afirma que, para preservar esses organismos, uma medida simples é "estabelecer regulamentações mais rigorosas para a manutenção dos estoques marinhos desse grupo de peixes, já que muitos deles ainda hoje sofrem com a pesca predatória".

Adaptação

Os peixes nototenioides conseguem sobreviver a temperaturas extremamente baixas porque possuem glicoproteínas anticongelantes, membranas celulares que se tornam mais fluidas à medida que o frio aumenta. "Esses peixes também apresentam redução de resposta ao choque térmico e muitas proteínas modificam sua estrutura para que o metabolismo continue funcionando de maneira eficiente. Outra característica importante é que os rins deles armazenam moléculas que impedem o congelamento do organismo", explica Near.

Tais proteínas foram desenvolvidas entre 22 milhões e 42 milhões de anos atrás. Os pesquisadores desvendaram nesse estudo, no entanto, que as espécies de nototenioides que conseguiram gerar mais descendentes surgiram cerca de 10 milhões de anos após a aparição dessas glicoproteínas. "Com base nisso, queremos determinar se a evolução das características desses animais estão associadas à alimentação e à locomoção deles", comenta. Outro ponto que a equipe pretende analisar é compreender por que há tantas espécies de peixes antárticos distintas.

Outra possibilidade com base nessa pesquisa, segundo Silva, é o desenvolvimento de novos trabalhos que identifiquem outras moléculas anticongelantes em peixes antárticos. "Isso pode auxiliar, de maneira decisiva, a seleção de protótipos de estruturas moleculares capazes de permitir a tolerância ao frio", salienta. "Esse estudo é a continuação dos projetos que buscam entender a evolução das propriedades moleculares dos nototenioides para se adaptarem à Antártida", comenta o integrante da Embrapa. "Desse modo, o estudo contribui para o conhecimento desse grupo de organismos e do hábitat deles", conclui.

Como os seres se adaptam à Antártida?

Entre as regiões do planeta mais inóspitas à manutenção da vida, a Antártida certamente ocupa uma das primeiras posições. O ambiente é continuamente assolado por temperaturas baixas e índices de radiação ultravioleta altos. Entretanto, organismos de todos os reinos estão presentes no local. Muitos deles sofreram adaptações em suas células e moléculas para conseguir fazer a manutenção de atividades fisiológicas fundamentais à vida. Entre os organismos vivos mais bem adaptados ao ambiente antártico, os peixes se destacam pela abundância, pela diversidade e por permanecerem na região mesmo durante o rigoroso inverno. A subordem mais abundante de peixes na região é a Notothenioidei, representada por oito famílias, com 43 gêneros e 129 espécies conhecidas.

O senhor poderia descrever seus estudos sobre os nototenioides?

Nossos estudos, que vêm sendo desenvolvidos na Embrapa com instituições como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade de São Paulo (USP), buscam isolar e caracterizar moléculas de peixes nototenioides antárticos, em particular moléculas com potencial atividade antimicrobiana, anticongelante e que absorvem radiação UV. Adicionalmente, queremos investigar as adaptações dos peixes antárticos no que diz respeito à atividade antioxidante, à composição de membranas e à estrutura de suas células e tecidos.

Qual a aplicabilidade dessas descobertas?

Identificamos em órgãos e tecidos dos nototenioides diversas moléculas que permitem manter sua atividade biológica mesmo no frio. Esse resultado pode levar a pesquisas direcionadas ao aumento da tolerância de plantas ao frio ou a programas voltados à criopreservação (congelamento) de material genético, como amostras de sêmen, óvulos e embriões. Moléculas com atividades anticongelantes, antimicrobianas ou antioxidantes sintetizadas podem vir a ser utilizadas como aditivos na indústria alimentícia de produtos congelados.

» Thais de Luna

FONTE: CORREIO BRASILIENSE

 



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