Em clima de festa, foi assinado nesta quarta-feira (13) a portaria que regulamenta a abertura do Arquipélago de Alcatrazes ao ecoturismo. O evento contou com a presença dos ministros do Meio Ambiente, Sarney Filho, e da Defesa, Raul Jungmann, além do presidente do ICMBio, Ricardo Soavinski e de comandantes da Marinha, a grande homenageada do evento.

Não era para menos. Por quase 40 anos a Marinha usou o Arquipélago para área de treinamento de tiro. Embora alguns poucos incêndios ocasionais — o último ocorreu em 2004 –, tenha ameaçado o ecossistema do arquipélago, a presença da Força Armada inibiu a pesca predatória nas águas do entorno, o que ajudou o santuário a manter a fauna recifal mais conservada e biodiversa do Sudeste e Sul do Brasil. Não é pouca coisa.

A parceria entre a área ambiental e a militar deu tanto certo em Alcatrazes que os ministros anunciaram que pretendem criar (ou reconhecer) áreas militares como Unidade de Conservação. Como isso será feito não foi adiantado.

“O que nós temos aqui é uma parceria inédita, a primeira do país, onde temos uma reserva compartilhada entre o ICMBio e a Marinha e o Ministério da Defesa. Nós temos muitos outros planos para unir Meio Ambiente e soberania nacional”, afirmou Raul Jungmann, Ministro da Defesa. “Lembrando que as Forças Armadas, depois do [Ministério] do Meio Ambiente, é a instituição que mais protege o meio ambiente no país. Se vocês prestarem atenção, praticamente aonde a gente tem uma área, seja ela marinha, fluvial ou no terreno, você pode ter certeza que a proteção é integral”, discursou o ministro.

A Marinha agora usa a ilha da sapata (no canto superior direito) como local de treinamento de tiro com munição inerte, ou seja, sem explosivos. As cápsulas resultantes do exercício são recolhidas no mesmo dia. Foto: Daniele Bragança.  

A Marinha agora usa a ilha da sapata (no canto superior direito) como local de treinamento de tiro com munição inerte, ou seja, sem explosivos. As cápsulas resultantes do exercício são recolhidas no mesmo dia. Foto: Daniele Bragança.

O diretor de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, José Pedro de Oliveira Costa, afirmou que os ministérios estudam transformar, nos moldes de Alcatrazes, as ilhas de Trindade, na costa do Espírito Santo, e o rochedo de São Pedro e São Paulo, no hemisfério norte, em Unidades de Conservação Marinha. Com isso, segundo o diretor, o Brasil alcançaria a meta de ter 10% da área marinha preservada em Unidades de Conservação. Atualmente, menos de 2% do território marinho nacional está protegido.

Refúgio começa a receber turista já em 2018

Nas próximas semanas, o ICMBio cadastrará as empresas de turismo que estejam interessadas em levar turistas para um passeio em Alcatrazes. As empresas deverão cumprir uma série de requisitos, entre eles, de jamais desembarcar nas ilhas. O decreto só permite atividades de mergulho recreativo e passeio embarcado para observação da fauna.

“Nós estamos num local ambientalmente muito sensível. Aqui [na ilha de Alcatrazes] nós temos espécies ameaçadas, espécies endêmicas, então a visitação foi pensada para ser embarcada. Área marinha só, que é o grande potencial do Refúgio. Nós pensamos em duas atividades para esse começo, que nós estamos chamamos de visitação experimental, que é a visita embarcada e o mergulho autônomo, o mergulho com cilindro”, explica Kelen Luciana Leite, chefe do Núcleo de Gestão Integrada de ICMBio Alcatrazes.

O Refúgio de Vida Silvestre, que completou um ano no dia 03 de agosto, é gerido de forma unificada com a Estação Ecológica Tupinambás, compondo o Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Alcatrazes.

O presidente do ICMBio, Ricardo Soavinski, adiantou que a visitação deverá começar em janeiro de 2018. “Estamos trabalhando para que a região comece a receber visitação já nesta temporada de verão, com a abertura de 10 pontos de mergulho”, afirmou. Um acordo de cooperação assinado também nesta quarta-feira entre o ICMBio e a SOS Mata Atlântica oferecerá apoio à gestão local.

Alcatrazes, a Unidade onde a Conservação funciona

A comitiva oficial: autoridades da Defesa, Marinha, do Meio Ambiente e do ICMBio celebram Alcatrazes. Foto: Ascom/ICMBio.

A comitiva oficial: autoridades da Defesa, Marinha, do Meio Ambiente e do ICMBio celebram Alcatrazes. Foto: Ascom/ICMBio.

Antes da solenidade onde foi assinada a portaria que abriu o refúgio ao ecoturismo, as autoridades e membros da imprensa fizeram uma visita ao arquipélago de helicóptero. Estavam todos felizes. Alcatrazes é um respiro de boas notícias no meio de uma avalanche de retrocessos na área ambiental.

Santuário marinho (local onde se concentra o maior número de espécies de peixes do país), santuário de aves (o maior ninhal de fragatas do Brasil está ali) e dona de uma população endêmica de dar inveja para muitas ilhas (a temível Jararaca de Alcatrazes não me deixa mentir), a Unidade de Conservação acaba de fazer um ano e já tem um plano de manejo para chamar de seu, além de não possuir conflito fundiário, o problema mais comum em área protegida.

Chamada de “joia ambiental” e de “patrimônio do povo brasileiro” pelo ministro Sarney Filho, que fez questão de destacar em sua coletiva de imprensa que Alcatrazes é, enfim, uma área protegida modelo.

A Ilha principal vista de cima. Foto: Daniele Bragança.

A Ilha principal vista de cima. Foto: Daniele Bragança.

A ilha de Alcatrazes tem 135 hectares e atinge 266 metros no Pico do Oratório. Foto: Daniele Bragança.

A ilha de Alcatrazes tem 135 hectares e atinge 266 metros no Pico do Oratório. Foto: Daniele Bragança.

O arquipélago tem 93 espécies ameaçadas, sendo 20 endêmicas, que só ocorrem neste pedacinho do paraíso. Foto: Daniele Bragança.

O arquipélago tem 93 espécies ameaçadas, sendo 20 endêmicas, que só ocorrem neste pedacinho do paraíso. Foto: Daniele Bragança.